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Nicolando Por Aí

04/10/2011

Nicolando Por Aí

Por conta do trabalho, os geólogos Rafael Gradim e Luciana Azevedo já haviam morado em dois outros países antes de chegarem ao Canadá, em 2010. Saíram de Belo Horizonte em 2004 e passaram três anos na Venezuela e dois anos e meio na Austrália.

Foi neste último que, ao tornar-se mãe, Luciana criou o Nicolando Por Aí – blog inspirado no nome do primogênito, que fala sobre a experiência da maternidade aliada à trajetória nômade do casal.

“Era a forma mais prática de atualizar a família e os amigos sobre nossa vida e a chegada do nosso filho. Em vez de escrever vários emails contanto tudo, escrevia de uma vez só no blog”, conta a blogueira.

Foi também em solo australiano que o casal deu entrada no processo de imigração canadense e trocou o calor desértico de Kalgoorlie pelo clima temperado de Vancouver – embora hoje vivam numa cidade a cerca de 70 km da ideia inicial (a entrevistada pediu para que o nome da cidade não fosse divulgado).

Dentre as razões da troca de um país por outro, destacam-se as oportunidades profissionais (British Columbia concentra muitas empresas de mineração) e uma maior proximidade ao Brasil. Embora admitindo uma generalização, também não admiravam muito os australianos: “agressivos e competitivos”. Some-se a isso a mais pura simpatia pelo Canadá.

“Não há um motivo lógico para termos saído da Austrália, apenas não nos identificamos tanto com o país”, confessa Rafael. “Além do mais, o Canadá é um país muito tolerante, ninguém te olha feio se você fala outra língua. Existe uma abertura a outras culturas.”

Com o visto nas mãos, Rafael comunicou ao chefe australiano que estava partindo. Por sorte, conseguiu no Canadá um trabalho na mesma multinacional onde trabalha desde os tempos da Venezuela.

Já Luciana, preocupada em conciliar a profissão com a maternidade, desistiu da geologia para se tornar ilustradora.

“Nossa renda caiu pela metade mas me sinto bem mais feliz fazendo o que faço agora. Antes, trabalhava doze horas por dia e era bem mais estressada. Já hoje, posso cuidar do meu filho e passar mais tempo perto da família”, conta.

Em seu blog, além de dar dicas maternas (por exemplo, como viajar de avião com filhos pequenos), Luciana relata as primeiras impressões com o novo país e também discorre um pouco sobre os lugares onde já estiveram. “Muitas das mães que acompanham o blog também moram no exterior”, afirma.

O contato inicial do casal com outros blogs que têm a imigração como tema ocorreu enquanto esperavam o visto que lhes permitiria viver no Canadá. “Quando estamos fora do país, ficamos isolados para interagir com outros que passam por experiências parecidas. Por isso os blogs são importantes”, constata a mãe.

Durante nossa conversa, Rafael lembra da dificuldade da recolocação profissional para um imigrante no Canadá. Como, em geral, um profissional brasileiro não é tão qualificado quando um canadense, a luta para conseguir um emprego na mesma área torna-se um desafio.

“Vemos muitos chegarem aqui e trabalharem em empregos que exigem menos qualificação. Eu, pessoalmente, consegui evitar isso não por meu mérito, mas por minha profissão ser bem valorizada”, diz ele.

Mesmo com a vida encaminhada no terceiro país onde são imigrantes, nenhum dos dois desconsidera a possibilidade de um dia voltar à pátria amada. “Não saímos do Brasil porque estávamos insatisfeitos com o país, mas por uma oportunidade profissional. Antes tínhamos mais vontade de voltar mas, por enquanto, decidimos ficar aqui para ter uma estabilidade”, concluem.

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Neve ao Chocolate

13/09/2011

Neve Ao Chocolate, de Gatineau

Há pouco mais de um ano no Canadá, Sandro Ferreira decidiu mudar de vida no momento em que decidiu mudar de país. Preparou-se por três anos e meio até dar entrada no processo de imigração de Quebec em 2009 – decisão que tomou após assistir uma das palestras promovidas pelo escritório de imigração da província em São Paulo.

Formado em Direito e trabalhando na área tributária, resolveu iniciar uma segunda graduação que lhe permitisse ganhar pontos como candidato à imigrante.

Atuar como advogado não era uma opção a se considerar – ainda que a validação do diploma não fosse necessária, seria preciso refazer o curso, já que há uma distinção fundamental entre as bases das leis brasileiras (Direito Romano) e canadenses (Common Law).

“Em 2007 comecei a estudar Gestão de Negócios, uma das profissões com maior demanda por aqui. Queria ter a pontuação máxima nos quesitos formação profissional e empregabilidade para compensar minha deficiência no francês”, conta o rapaz que cresceu na periferia de São Paulo e hoje mora com a esposa em Gatineau – cidade que faz fronteira com a capital canadense, Ottawa.

A escolha pela nova profissão foi parte de uma minunciosa preparação onde cada passo era dado via internet. Ele passaria a prestar atenção nas demandas do mercado de trabalho canadense através de sites do governo e, paralelamente, desenvolveria uma rede de contatos com brasileiros que já estavam no Canadá através de seus blogs – especialmente aqueles que atuavam na nova área profissional que escolhia para si.

“A gente vai para ficar um mês passeando, mas se eu arrumar trabalho não volto”, propôs à esposa assim que estavam com o visto nas mãos. “Logo que cheguei, deixei as malas e passei o dia tirando todos os documentos. No dia seguinte fui procurar emprego e uma semana depois já estava trabalhando”, relembra.

Graças à dica de uma imigrante que trabalhava no balcão de informações do metrô de Montreal – cidade que foi “visitar” –, Sandro conseguia seu primeiro emprego canadense num centro de distribuição. Estava disposto a trabalhar não importasse em quê; tudo fazia parte de seu plano de vôo.

Dali a menos de um mês receberia a ligação de um amigo lhe oferecendo uma vaga em uma outra cidade para ser prestador de serviços – função que de fato queria para si e na qual está até hoje.

Negro, oriundo da periferia, Sandro sentia a falta de um blog que falasse de uma realidade mais próxima a sua.

“Não tem negrão que emigra? Eu não conhecia nenhum blog que falava com a linguagem de negrão. Queria saber como eram por aqui essas questões que não eram abordadas em nenhum dos blogs”, questiona o criador do blog Neve ao Chocolate. Ao explicar o nome, ele cai na gargalhada: “Dois pretinhos no país do gelo”.

Ao criar o blog em 2007, sua intenção era falar sobre imigração para quem não tivesse tantas oportunidades. “O perfil do imigrante brasileiro clássico é o cara de classe média alta que já tem pedigree. O jovem negro ou pobre no Brasil não tem oportunidades, perspectivas nem referências, por isso vive no conformismo. Se ele tem um pouco de incentivo, vai em frente”, afirma.

Sua vontade de emigrar por si só já demonstra um comprometimento pessoal de ir contra as estatísticas, fazendo a diferença.

“No Brasil, negro sempre foi a vítima clássica da violência e quando começa a escalar a pirâmide social é frequentemente confundido com artista ou jogador de futebol. Quando me casei e fui morar no Tatuapé (bairro paulistano de classe média), meus vizinhos ficavam surpresos quando eu dizia que era advogado”, lamenta ao constatar que é mais fácil ser negro no Canadá.

Em seu blog, Sandro aborda questões como o sistema de saúde canadense, conta algumas histórias engraçadas – como o dia em que se meteu por engano como tradutor em um processo na Justiça ou o dia em que sua esposa conversou em inglês com uma atendente de lanchonete – e comenta algumas dicas sobre como ser um profissional autônomo.

O blogueiro não esconde seu entusiasmo com o novo país mas ressalta a importância de saber a diferença entre o que é dito nas palestras promovidas pelo governo (que quer imigrantes) e a realidade.

“É um conto de fadas. O Canadá busca a elite intelectual dos outros países mas  quando o profissional chega aqui vê que é diferente do que ouviu nas palestras. Por isso, o imigrante ideal não será necessariamente bem sucedido. É preciso que as pessoas que queiram vir saibam que terão que dar passos para trás e estejam dispostas a isso”, diz.

Atualmente, Sandro é microempresário e presta consultoria no setor de telecomunicações. Parafraseando seu entusiasmo cristão, tem o emprego que pediu a Deus. “Hoje ganho menos do que ganhava como advogado no Brasil mas meu poder de compra é bem maior. Além disso, tenho flexibilidade, sou meu próprio patrão e gosto do que faço”, conclui.

Se ainda volta ao Brasil? Sua resposta não deixa dúvidas: “O Brasil pode ser o país do futuro, talvez para os meus netos, mas não para mim”.

Well & Suzel no Canadá

06/09/2011

Well & Suzel, de Montreal

Um amigo pedindo conselho sobre uma possível imigração para Quebec. Foi assim que o brasiliense Wellington Gomes começou a se inteirar do assunto. Pesquisou tanto que agora vive com a esposa e os dois filhos em Montreal, desde maio de 2008.

A primeira impressão da cidade não foi de amor à primeira vista; além do trânsito que lhe chamou atenção, inicialmente também achou o lugar sujo e feio. Mas como já havia uma possibilidade profissional em vista, levou apenas uma semana para conseguir um trabalho, onde ficou por um ano e um mês, até chegar a crise financeira que lhe custou seu primeiro emprego canadense.

No Brasil, Wellington tinha uma empresa de contabilidade que lhe garantia um bom rendimento e muita dor de cabeça. Hoje, atua na área de vendas de uma companhia canadense e, se ainda não tem a mesma situação financeira que tinha em seu país de origem, não parece estar nem um pouco arrependido da mudança.

“Não troco ganhar três vezes mais como ganhava no Brasil pelo que tenho aqui agora. Tenho muito menos stress profissional e muito mais qualidade de vida. Tenho horário para sair do trabalho”, diz aliviado o autor do blog Well & Suzel no Canadá, que hoje já vê beleza na cidade onde escolheu viver com a família.

O blog foi criado dois meses antes de sua chegada para documentar as etapas do processo e atualizar os amigos – inclusive aqueles que também queriam emigrar para o Canadá.

Em sua maioria, os posts mencionam assuntos pertinentes à vida do imigrante. “Comprando Casa” aborda tópicos como créditos, prestações e juros para quem deseja adquirir um imóvel por lá; “Nova Pontuação – Processo Quebec” atualiza a nova tabela de pontos para os que desejam emigrar para Quebec e iniciaram o processo após dezembro de 2010; “Imigração – Pra onde? – Adaptação” destaca alguns fatores que os candidatos à imigração devem estar atentos na hora de considerar a mudança de um país para outro.

Antes de sair do Brasil, a pesquisa foi uma importante etapa da preparação. Wellington ressalta que conferir a mesma informação em mais de um lugar é fundamental.

“Quando pesquisamos o que era bom ou não trazer, se era importante ou não morar perto de metrô, recebemos dicas do que não prestava aqui ou então de não nos preocuparmos com abertura de conta de banco, mas muitos davam dicas porque estavam emocionalmente afetados”, revela. “Os blogs me ajudaram muito para me informar, mas aprendi que era preciso ainda ver se as dicas eram verdadeiras”.

Para ele, a vitória de um imigrante depende de uma série de fatores. “A imigração não é para qualquer um. Vi brasileiros tendo muito sucesso e outros quebrando a cara a ponto de voltar ao Brasil com depressão profunda, então os blogs só ajudam com atalhos, pois experiência cada um vai ter uma diferente”, afirma. “Muita gente encara como uma possibilidade de melhoria de vida mas nem sempre é assim para todos”.

Em sua opinião, o maior desafio para um imigrante é estar preparado para dar passos para trás e ter várias cartas na manga, caso o plano inicial não dê certo.

“Um imigrante tem que voltar a ser criança, reaprender a andar, falar, comer, trabalhar, recomeçar”. Quando perguntado sobre o frio – um dos grandes temores de quem está emigrando para o Canadá – ele não titubeia: “Depois de três anos aqui, o frio é o menor dos meus problemas”.

Wellington chegou a ficar oito meses sem um trabalho formal, fazendo bicos e contando com o auxílio-desemprego a que teve direito por conta do seu primeiro trabalho. Mas graças a sua perseverança está em um emprego onde tem tudo para crescer profissionalmente. “Ainda estou me recolocando no mercado de trabalho a duras penas, mas está sendo bom para todos”, pondera o blogueiro.

Suzel Gomes – a esposa cujo nome também está no título do blog – trabalhava como bancária no Brasil e desempenha a mesma função no Canadá. Dedicou-se à francisação desde quando chegou e hoje já lida com os clientes falando francês com a mesma desenvoltura que em sua língua materna.

“A única coisa que nos faz muita falta são os amigos”, conclui o casal.

Recentemente, Wellington e a família deram entrada no pedido da tão sonhada cidadania canadense. Pelo jeito, podem estar até abertos a uma eventual mudança de cidade, mas, ao menos por enquanto, mudar de país parece uma ideia bem mais distante.

ReMiGaLu

03/06/2011

Remigalu, de Calgary

Ao se deparar com uma reportagem sobre brasileiros bem sucedidos no exterior, inclusive no Canadá, o potiguar Renato Barros perguntou à esposa o que ela achava da ideia.

“Topo!” – Era abril de 2006 e eles já haviam morado em diversas cidades brasileiras. A mudança para outra, ainda que fora do país, não assustava Mildred Davim. Nem mesmo a sua falta de domínio do inglês antes de chegarem com os dois filhos a Calgary, na provícia de Alberta, em novembro de 2007 – cerca de um ano e meio depois daquela leitura.

“O nosso processo foi diferente de muita gente. Não tinhamos um sonho. A ideia surgiu e eu acabei topando sem pensar muito”, revela a brasiliense que é, com o marido, co-autora do blog ReMiGaLu – o nome remete às iniciais do casal e seus filhos.

O blog estreiou após a compra das passagens, pouco antes do embarque, e foi criado para que o casal desse notícias às famílias. No entanto, como a maioria dos blogs do gênero, conquistou uma audiência cativa das pessoas que tinham em comum o interesse pela imigração no Canadá.

Dentre os tantos posts do ReMiGaLu, destacam-se “Para começar”, que conta bem o início de tudo, e “Saudade”, que chama a atenção pelo volume de comentários. “Dúvidas sobre Calgary” é um dos posts que mostram como o casal é atencioso com as perguntas dos leitores sobre a vida em Calgary.

Para se ter uma ideia de como ajudam no que podem, nos três anos e meio em que moram no Canadá, Renato e Mildred já abrigaram sete famílias de imigrantes brasileiros recém chegados. “Muitos nos falam que nunca fariam o mesmo, mas a gente acolhe como se fosse parte da nossa família”, conta Mildred que atualmente aguarda a oitava família que vai ajudar na chegada ao Canadá.

Renato e Mildred trabalham hoje no que querem, mas não viram nenhum problema em aceitar empregos de menor prestígio no início. Entre os trabalhos pelos quais passou, Mildred foi atendente de uma rede de cafés e trabalhou em uma escola para crianças, antes de se especializar em Design de Interiores na Universidade Mount Royal. Hoje ela atua como consultora na área.

Renato trabalhou nos primeiros meses como atendente de lanchonete e entregador de pizza. “O primeiro foi um erro, pois era um trabalho braçal full time e quando chegava em casa, não tinha energia para procurar um emprego onde queria. Mas após um mês e meio, fui entregar pizza. Aí foi ótimo, porque com um horário mais flexível tinha o dia livre para procurar um emprego na minha área”, conta ele, que hoje em dia trabalha como especialista em wireless em uma empresa canadense de telecomunicação.

Entre os motivos da saída do Brasil, o casal destaca a falta de uma cidadania plena. “A gente abria os jornais e era desgraça, corrupção, violência. Cada capa de Veja era mais um motivo para gente sair”, conta Renato.

Agora, completamente adaptados ao novo país onde escolheram criar os filhos – que se comunicam entre si em ingles, mas preservam a língua materna dentro de casa – não pensam mais em voltar para o Brasil, exceto para visitas. “Estive no Brasil este ano”, conclui Mildred, “e tive a certeza de que eu não volto mais”.

Desafio inicial deste metablog: a escolha dos blogs

10/04/2011

O desafio inicial da elaboração deste metablog é a quantidade de informação a respeito do processo de emigração para o Canadá. São centenas de blogs de imigrantes que retratam a nova vida no Canadá e cada um deles indica mais algumas dezenas através de links.

Alguns desses blogs serão aqui listados segundo as províncias onde moram seus autores – Alberta, British Columbia, Ontario e Québec são os destinos mais procurados pelos brasileiros, segundo o que apontam os próprios blogs de imigrantes.

Há uma gama de posts que contam a partir de experiências próprias questões relativas à educação, emprego, habitação, imigração, lazer e saúde. E tratar desses temas é o critério para que o blog seja elencado neste TCC entre os mais relevantes.

Projeto de TCC

26/03/2011

Em destaque, cada uma das províncias canadenses com suas principais cidades

Viver no Canadá é um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Jornalismo realizado por Thiago Mattos, pela Faculdade Cásper Líbero.

Este metablog tem como objetivo analisar os blogs criados por imigrantes brasileiros que vivem no Canadá. Através deles, são discutidas questões essenciais para a inserção dos recém-chegados à nova sociedade. Educação, emprego, habitação, imigração e saúde e lazer são temas recorrentes.

Ao prover múltiplos olhares e informações mais acessíveis a quem sai do seu país de origem para viver em outro, a internet dá uma cara nova à questão da imigração. Tornou-se uma ferramenta de apoio, onde a messagem não é mais apenas passada de maneira vertical.

Agora é possível discutir, discordar, questionar. Surge uma nova maneira de se comunicar.

Viver no Canadá aborda a influência da internet e dos blogs na vida dos imigrantes do século XXI.